Mr. X
Parece que mais um ano esvaiu-se, ou melhor, acabou. Todos os planos realizados, metas alcançadas, festas preparadas; amigos, amores, temores também... Enfim, tudo.
É hora de colocar em práticas aquelas velhas tradições – pra quem é supersticioso – de fim de ano; seja qual for a sua: rosas ao mar, saltar onda, oferenda ao santo.
(...)
Nossa... Esse texto tá chato. Que tal dar uma cara um pouco mais moderna e ridiculamente menos mecânica, hein? “Saltar onda... Seja qual for a sua... Aquelas velhas tradições” Ah! Faça-me o favor! Mas que texto meia boca esse.
Pois é gente, além daquelas velhas e chatas tradições de fim de ano, ainda temos que agüentar algumas dissertações simplórias e sem vida de pseudoletrados. Pessoas que aprenderam a escrever com “Faça a redação perfeita” ou “Redação no vestibular: dicas e o passo-a-passo”.
É um verdadeiro circo dos horrores! “Vejam o texto que eu fiz, minha banca de professores predileta”. –É... Pela maneira como foi escrito, pela forma que foi montado e coerentemente contextualizado: Hum... Eu dou dez! –Ah, eu também! Mas que coisa incrível: ele aprendeu direitinho! Ouviu pacientemente tudo o que o professor falou, fez os simulados, aprendeu o discurso direto e o indireto; soube fazer bom uso das figuras de linguagem... Perfeitinho.
“Ai! Bonitinho, sentadinho, adestradinho como o meu lindo cãozinho!” Eca. Fico assustado de imaginar tal coisa... Esse aí vai ser um excelente profissional, eu creio: Freqüentar todas as baladas e choppadas da faculdade; pegas todas as cachorras, fumar muito baseado... Afinal: “Dei um duro no cursinho, né, pô?” E no fim das contas, depois de uns dez períodos de reprovações, ele pega o canudo do seu curso de direito. É... Eu queria saber só no que ele acredita e o que defende.
Mas não estamos aqui pra mostrar a conduta de alguns dos nossos jovens dentro da universidade. E é claro que esse é um discurso individualista, mesquinho e sem consideração por aqueles que querem alguma coisa de verdade. A esses eu peço desculpas, até por que eu não quero crucificar ninguém e muito menos me colocar num patamar acima da razão. Longe de mim. Eu só tô querendo escrever o meu texto, que por sinal não aborda diretamente essa questão.
Okay, é... Vamos em frente, por favor.
Como eu estava falando antes d’eu mesmo mo interromper com pormenores(adoro isso), somos obrigados a engolir produções sem ânimo e frescor dos nossos aspirantes a profissionais. Não é por que a banca examinadora vai corrigir a sua redação é que você tem que me impressionar. Aliás, nos impressionar, diga-se de passagem. Eu falo por mim e por uma legião de leitores famigerados, loucos dentro de seu íntimo por um pouco de irreverência e originalidade. Que saco! Odiaria visitar a página de um blog ou de pegar um texto de um jornal – ãh... Não preciso dizer que não é uma notícia, né zentsie? – e encontrar um texto desse jeito:
O Brasil é um país com inúmeros recursos, porém desigual. Os problemas são os mais diversos: da destruição das matas até a defasagem do ensino público. O governo, na tentativa de conter os problemas, desenvolve soluções emergenciais; programas de ajuda pouco eficientes e que agravam ainda mais a situação em que o país se encontra. No ritmo em que as coisas estão, a esperança do brasileiro vai diminuindo; o ânimo e a vontade de lutar pelo progresso também.
Vemos famílias exibindo um luxo quando enfeitam sua árvore de Natal, ao passo que na mesma cidade, e até no mesmo momento, uma outra família anseia, expecta, por uma única refeição à meia-noite dentro de seu contexto de exclusão social.
Ai, que chato! Alguém me dá um copo d’água, por favor? Minha nossa, tive até um rebuliço agora há pouco; não sei se eu estou emocionado ou enojado... Olha, se por acaso vocês querem escrever esse roteiro piegas... Vão em frente! Eu pouco me importo com tal desalento, afinal cada um escreve o que quiser e quando quiser: Esse é um país livre.
Eu lamento muito. Gostaria que nossas mais brilhantes mentes pudessem se soltar, mas se soltar de verdade; como pássaros libertos e libertinos. E não se prender a temas que a gente vê todos os dias no noticiário. É óbvio que eu devo ressaltar que é importante sim se prender a um tema; refletir, discutir a fim de criar soluções. E a banca examinadora, meu futuro universitário, quer saber se você é capaz de fazer isso. Será que o é? Eu não duvido... Cada um sabe a competência que tem.
Mas chega, né? Minha opinião é expressamente inconveniente; até por que a realidade não vai mudar, pro meu lamento.
“Fim de ano, ô coisa boa! Não vejo a hora de chegar o ano que vem, quando tudo vai mudar na minha vida. Não vou mais beber, vou me dedicar mais ao trabalho; sexo às vezes também é bom – as coisas vão dar certo!” Promessas e promessas, o mesmo blá-blá-blá de sempre. Eu também não largo os clichês, hein? Todo mundo fala mal das promessas de final de ano.
Certo, eu só gostaria que as coisas mudassem um pouco nesse próximo ano, que as pessoas parassem pra pensar um pouco mais nos outros e revissem seus próprios valores, que não se preocupassem no início do ano em como vão decorar a árvore no próximo Natal, que saíssem mais aos domingos e que dessem o melhor de si no trabalho – e não exercer suas atividades de olho no contracheque. É basicamente isso, são meus votos sinceros.
Quanto a mim, sei lá, né... Eu tô por aí.
Abraço.
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